domingo, 11 de março de 2007

INFÂNCIA NA MARÉ - FINAL


E foi testemunhando a força desses lutadores que construíram grande parte da história arquitectônica da cidade maravilhosa trabalhando como obreiros na construção de prédios, pontes, estradas e monumentos; servindo aqui e ali em casas de famílias, bares e restaurantes, que cresci aprendendo a andar e correr sem medo por essas pontes e becos, descobrindo em minha adolescência outras nuances, outras facetas daquele universo rico e dinâmico que na verdade era e ainda é a síntese da nossa cultura.
Foi na esperança estampada nos olhos desses atores sociais que diariamente repetiam a mesma rotina estafante de coletivos e trens lotados indo ainda de madrugada para o trabalho e voltando pra casa exautos no entardecer quase à noitinha, que vislumbrei a possibilidade de mudança e transformação social que hoje impulsiona o meu trabalho de afirmação de nossa identidade e cidadania.
Na satisfação revelada no rosto sofrido, e tão prematuramente envelhecido pela lida, aprendi o valor do dever cumprido. Na importância do humilde sustento oferecido à família através de muita luta é fé num futuro melhor aprendi a valorizar a grandeza do trabalho, enquanto os irritantes autofalantes da Sede, como era conhecida a associação de moradores da Baixa do Sapateiro tocavam, por intermináveis horas: “Ô, Ô, Ô Brasil gente pra frente construindo essa nação, com trabalho permanente, com firmeza e coraçãoãoãoão... É um país que canta, trabalha e se agiganta, é o Brasil do nosso amorrrrrrr...” promovendo o orgulho a uma Pátria Mãe Gentil que nos negava, e infelizmente ainda nos nega, o direito à cidadania plena.

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