Da infância na maré me lembro pouco, ou quase nada, da indignação dos moradores frente às condições subhumanas que caracterizavam aquele cotidiano. Minha inocência infantil se envolvia com outras imagens e aspectos do cotidiano, se detia em formas, rítmos e cores que na visão quase sempre onírica do olhar infantil revelavam um espaço mágico e labiríntico formado por uma arquitetura improvisada onde becos saiam em becos, onde portas se confundiam com janelas e onde pessoas e animais conviviam harmoniosamente num ambiente praticamente rural que pra mim era a imagem do paraíso - o lugar onde nasci, cresci e criei laços afetivos, espaciais e pessoais que hojem compõem a minha história, a minha origem.
Enquanto alguns espaços da favela me fascinavam pelas possibilidades lúdicas, oferecendo formas diversificadas de interação física, onde vivências, jogos e brincadeiras infantis se articulavam com uma naturalidade e uma expontaneidade sem igual; outros me apavoravam e me atormentavam pela fragilidade estrutural e pelo perigo sempre iminente.
Pique Bandeira, Pique Esconde, Polícia Ladrão, Carniça, Bento que bento é o frade, Garrafão, Pique Tá, Pique Cola, Bola de Gude, Pião, Chicotinho Queimado, Amarelinha e tantas outras brincadeiras do universo infanto-juvenil que recordo com saudades; tudo acontecia em uma harmonia sem igual, que só a mente infatil livre de condicionamentos e preconceitos era capaz de perceber...

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